Conversas P'ra Mesa com Inês Tomada
- todospramesa
- 15 de jun. de 2023
- 4 min de leitura
Mitos e verdades sobre a Alimentação Infantil
Quem é a Inês Tomada?

O meu nome é Inês Tomada, sou licenciada em Ciências da Nutrição e mestre
em Nutrição Clínica pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da
Universidade do Porto, e doutorada em Metabolismo, Clínica e Experimentação
pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Sou Nutricionista
Especialista em Nutrição Clínica, e dedico-me à Nutrição da Mulher, da Criança
e do Adolescente, exercendo atividade clínica independente em Lisboa, no Porto
e em Braga.
Desde 2009, sou Professora Auxiliar Convidada na Escola Superior de
Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa.
As crianças podem ficar hiperativas devido ao consumo de açúcar?
Não. Tanto quanto é do meu conhecimento, à data, não existem evidências
científicas que comprovem a associação entre o consumo de açúcar e a
hiperatividade em crianças saudáveis. Aliás, há vários trabalhos que
demonstram claramente que o açúcar não afeta nem comportamento nem a
performance cognitiva das crianças.
Mas este é um mito muito presente nos pais. Os pais tendem a confundir a
alegria ou excitação da criança quando come doces com hiperatividade.
O leite de vaca não pode ser oferecido às crianças?
O leite de vaca não deve ser oferecido às crianças até aos 12 meses e,
obviamente, estará proscrito posteriormente em casos muito particulares e
clinicamente documentados, como por exemplo a Alergia às Proteínas do Leite
de Vaca. Excetuando estas situações, a partir do 1º ano de vida, não há razão
para privar a criança do leite de vaca. O leite é um alimento nutricionalmente
rico. Tem proteínas de alto valor biológico, vitaminas e minerais, como o cálcio,
essenciais a um organismo em crescimento e desenvolvimento. Importa referir
que o leite deve ser oferecido às crianças sem aditivos, seja cacau, chocolate,
açúcar ou mel.
O iogurte é uma escolha saudável para sobremesa?
Não, de todo. O iogurte não deve ser escolhido como sobremesa. A sobremesa
deverá ser fruta, preferencialmente fresca e da época.
Comer um iogurte no final do almoço ou do jantar, não só vai enriquecer a
refeição em proteína (e muitas vezes em açúcares!), como vai comprometer a
absorção de nutrientes importantes. Em concreto, numa refeição onde foi
consumida carne ou peixe, legumes e/ou leguminosas ricos em ferro, o cálcio
presente no iogurte, irá diminuir a absorção intestinal do ferro. Por outro lado, a
absorção intestinal do cálcio também poderá ser diminuta, devido aos fitatos e
oxalatos presentes em alguns vegetais.
O iogurte é um alimento muito interessante, sim, mas a ingestão deve ficar
reservada para o pequeno-almoço e lanches.
A obesidade na infância deve ser desvalorizada porque “com o tempo tudo passa”?
A expressão “o tempo cura tudo” não se aplica quando o tema é obesidade. A
obesidade é uma doença crónica e, como tal, requer tratamento para toda a
vida! É urgente mudar o paradigma de que “quando crescer passa” porque,
infelizmente, na grande maioria das vezes o problema não se resolve com o
crescimento. Desvalorizar a obesidade infantil hoje, é promover o seu
agravamento no futuro.
O aumento de peso da mãe durante a gravidez influencia o peso à nascença do bebé?
Sim, definitivamente. Muito embora existam outras causas que influenciam o
peso do bebé ao nascimento de forma independente ao ganho de peso materno.
Mas importa aqui referir que, quer o ganho de peso insuficiente, quer o ganho de
peso rápido e excessivo durante a gestação tem repercussões fetais, e reflexo
não só no peso à nascença do bebé, mas também na sua saúde futura.
A obesidade infantil pode ser hereditária e por isso “não há nada a fazer”?
Todos sabemos que não existe uma única causa para a obesidade. A obesidade
é uma doença multifatorial, que envolve a interação entre vários fatores desde
comportamentais a genéticos, com forte influência do ambiente.
A causa genética é uma realidade que não pode ser descurada, mas em bom
rigor “não se herda a obesidade”, herda-se sim a vulnerabilidade para a
obesidade. Ora assim sendo, há muito a fazer! E sem dúvida alguma, a
magnitude da doença pode ser atenuada pela adoção de um estilo de vida
saudável, onde se incluem os bons hábitos alimentares e a prática regular de
exercício físico.
A atuação do nutricionista só faz sentido depois do desenvolvimento total da criança?
Não, não e não. A atuação do Nutricionista deve começar mesmo antes da
criança nascer! Sabemos que desde fases muito precoces do desenvolvimento
humano, na dependência da alimentação materna, o feto é exposto a diversos
fatores nutricionais que serão determinantes para a sua saúde não só ao
nascimento, mas longo de toda a infância, adolescência e vida adulta. Então,
será desde o momento em que os casais decidem serem pais que a intervenção
do Nutricionista deve começar.
Protelar a orientação nutricional até ao desenvolvimento total da criança, é
permitir o enraizamento de hábitos alimentares, hábitos estes que podem, por si
só, condicionar o seu potencial máximo de desenvolvimento!
Há algo mais que queira acrescentar sobre este tema?
O papel do nutricionista não deve ser apenas visto como o profissional que
minimiza o impacto das doenças, mas também daquele que orienta a
alimentação no sentido de prevenir o desenvolvimento de doenças, seja da
obesidade seja de qualquer outra doença crónica e degenerativa. Prevenir é
sempre mais fácil, mais económico e mais eficaz, do que tratar.
Obrigada, Inês!
Comida que podia comer para o resto da vida: Comida italiana!!!
Livro favorito: Não tenho propriamente um livro favorito. Tenho vários! Seria injusta se enumerasse uns em detrimento de outros.
Viagem de sonho: Quando regressar, conto!
O sonho que ainda falta concretizar: Tenho alguns, mas guardo-os para mim.
Hábito ou mania que ninguém compreende: Rasgar papel em pedacinhos muito pequeninos. Mesmo quem me conhece bem, respeita, mas custa-lhe entender.
Se quiserem conhecer melhor a Inês, sigam-na em @inestomada_nutricao ou visitem o site www.inestomada.pt.
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